“Todos os terroristas são migrantes”

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs

Esta lacônica, cínica e famigerada frase foi pronunciada, com todas as letras, por Viktor Orbán, Primeiro Ministro da Hungria desde 2010. O político mostrou-se muito menticuloso no sentido de deixar em branco o fato de que, entre os migrantes, apenas alguns indíviduos (ou uma minoria absolutamente irrisória) são terroristas. Mais do que nunca vale a advertência do ditado popular, segundo a qual “meia verdade é pior que a mentira”. Neste caso, fundem-se as palavras e o silêncio que as seguem, para generalizar uma atitude

discriminatória e xenofóbica de não poucos governos recentemente eleitos. Pior ainda é a constatação de que tais palavras encontram boa ressonância entre os cidadãos.

De fato, a Viktor Orbán (Hungria) poder-se-iam juntar Sebatian Kurz (Aústria), Donald Trump (Estados Unidos), Matteo Salvini (Itália), Tayyip Erdogan (Turquia), Rodrigo Duterte (Filipinas), Wladimir Putin (Rússia), e assim por diante. No avanço da extrema direita por toda parte,  os posicionamentos, ações e palavras de seus representantes mais significativos procuram deixar claro “a ideia de que entre os dois grupos – migrantes e terroristas – exista uma ligação simétrica e de recíproca causalidade”, como denuncia Zygmunt Banman. Viktor Orbán, porém, foi mais longe: mandou construir um muro com quatro metros de altura e 167 quilômetros de comprimento, na fronteira entre Hungria e Sérvia. Progeto que, diga-se de passagem, passa pela cabeça de vários outros. Novamente aqui, os políticas se fazem porta vozes de parte expressiva das respectivas populações.

O perigo reside na tentativa de transformar o clima de medo, inquietude e ameaça, provocado pelos ataques terroristas nos Estados Unidos e em vários países da Europa, em plataforma e trampolim para subir ao trono. O pânico mais ou menos generalizado constitui terreno fértil para a busca febril e frenética de eleitores e de votos. Em tempos de crise, com a promessa de um projeto salvador da pátria, é costume engendrar-se uma mistura de funtamentalismo, nacionalismo, totalitarismo e populismo – via que tem conduzido ao poder não poucas figuras de uma direita extrema e saudosa do Homem forte, como Hitler e Stalin, por exemplo. Efetivamente, mutatis mutandis, não é difícil comparar tudo isso com os anos de 1930, período que se seguiu ao Crash da bolsa de Wall Stret, em outubro de 1929.

Desta vez, entretanto, estão em jogo os milhões de migrantes, prófugos e refugiados que erram pelas estradas de todo mundo, tentando fugir da violência e da guerra, bem como da pobreza, miséria e fome. As autoridades por uma parte, e os grandes meios de comunicação, por outra, em lugar de argumentos racionais e dados concretos, usam a emoção e o sensacionalismo para acirrar os ânimos da população contra os estrangeiros. Com frequência, lemos nos jornais e ouvimos pelas ruas expressões como “crise migratória”, “invasão africana”, “maré humana”, “onda negra” – para deixar de lado outras formas impronunciáveis de referir-se aos migrantes. Disso resulta que uma série de sondagens recentes, a partir dos USA, da Itália, da Hungria e da Aústria, revelam expressiva aprovação popular às políticas anti-migratórias. Tudo indica que tal aprovação vai de pari e passo com o endurecimento do regime.

O círculo vicioso revela-se cerrado, perfeito e perverso. De um lado, os políticos e boa parte da mídia espetacularizam os riscos e desordens que a “massa de recém-chegados” pode trazer à sociedade; de outro, determinados estratos da população aplaudem e elegem os candidatos dispostos a banir “os invasores indesejados”. Impressiona a coincidência de programas e projetos nos discursos da campanha eleitoral: expatriação dos indocumentados e irregulares, maior controle ou fechamento das fronteiras, redução no orçamento para os serviços de acolhida, documentação e inserção dos imigrantes. Após o processo das eleições e a vitória direitista, os dois lados se apoiam reciprocamente: os políticos procuram concretizar suas promessas com leis migratórias mais rígidas, enquanto boa parte dos cidadãos dá asas à própria fobia do outro, do estranho, do diferente, do estrangeiro. Isoladas, como vozes no deserto, permanecem as palavras de quem toma a sério a causa da acolhida, da inserção, do rico e mútuo intercâmbio entre os povos e culturas, da solidariedade internacional.

 Roma 11 de julho de 2018

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